sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Não esqueçam, Brasil é com 's' O GLOBO I Sexta·feira 31.8.2012
CLAUDIO CEZAR HENRIQUES
(1º§) Acabaram as Olimpíadas, mas a capital inglesa continua a saga esportiva. Iniciados em Roma-1960 e desde Seul-1988 chamados Paralympic Games, os Jogos que sempre chamamos de Paraolimpícos aparecem este ano com a nomenclatura do inglês. Para atender a um pedido do comitê organizador, agora escrevemos essa palavra sem O: Paralimpíadas ...
(2º§) O português não é o inglês, e a nova palavra gera estranheza a nossos ouvidos e olhos. Afinal, não há razão técnica que explique o sumiço do O e a manutenção do A. Nesses casos, quando nossa língua pratica a redução de um hiato, quem cai é a primeira vogal: "de-onde" não vira "dende" (vira donde) e "para-o céu" não vira "pra céu" (vira pro céu). Não precisava, mas, se era para cortar uma vogal no nome do evento, o esperado era que fosse Parolimpíadas.
(3º§) Eis aí uma lógica invertida, que ganha espaço no noticiário. Será que seremos levados a anglicizar a sigla do CPI, Comitê Paralímpico Internacional, passando a escrever IPC, International Paralympic Committee? Claro que não. A ONU não vai virar UN nem a Otan vai virar Nato do inglês. Sabemos que na língua tudo tem a ver com o uso vigente à época de sua criação ou difusão, inclusive as siglas: no Brasil podemos falar em OVNI, mas talvez a moda seja dizer UFO, o que explica a opção por Aids em terras brasucas - Sida só em Portugal.
(4º§) E por falar em terras brasucas (assim escritas porque são brasileiras) acaba de surgir um concurso de palavras, promovido por empresa multinacional, que é capaz de gerar desconfianças sobre nossas identidades brasucas. O nome oficial da bola da Copa do Mundo de 2014 pode ser brazuca, com Z.
(5º§) Ah, é só o nome da bola, ninguém deve ligar para isso. Claro que é só o nome da bola, mas cabe perguntar: por que o nome proposto para a bola da Copa no Brasil tem de ser brazuca, com Z? Se a Copa fosse em Portugal, a bola poderia ter o nome de portuga; se fosse em Moçambíque, poderia ser moçambicuda ... No Brasil, só poderia ser brasuca!
(6º§) Estamos ou não diante de um paradoxo? Escrever brazuca porque Brasil em inglês é Brazil faz lembrar a letra da canção de Rita Lee, que diz: "Vê se não esquece, meu Brasil é com S" (e nossa brasuca também, claro).
(7º§) Dos bancos escolares aos magros resultados obtidos por nossos estudantes nas provas de português do Enem, muita coisa ainda cheira a paternalismo por aqui. A ortografia não é só uma superfície comercial para o nome de um evento ou de um produto a ser explorado pela máquina do mercado. O modo de escrever palavras novas internacionalizadas revela alguma coisa sobre um povo, entre elas a maneira como esse povo "veste" sua língua (a ortografia é apenas uma vestimenta para as palavras).
(8º§) Resta saber se vai adiantar dizer agora que as grafias "paraolímpíadas" e "brasuca" estão assim registradas no Vocabulário Ortográfico da ABL e que todas essas coisas têm a ver umas com as outras ...
Claudio Cezar Henriques é professor de Língua Portuguesa da Universidade do Estado do Rio de Ianeiro

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

PROCESSOS DE FORMAÇÃO DE PALAVRAS

 

PROCESSOS DE FORMAÇÃO DE PALAVRAS

Palavras primitivas: são palavras que servem como base para a formação de outra e que não foram formadas a partir de outro radical da língua.
Exemplos: pedra, flor, casa, samba.

Palavras derivadas: são palavras formadas a partir do radical de uma palavra já existente.
Exemplos: pedreiro (derivada de pedra), floreira (derivada de
flor) , casebre (derivada de casa), sambista (derivada de samba).


Palavras compostas: são palavras formadas a partir de palavras (radicais) já existentes na língua.
Exemplo: pedra-sabão, navio-escola, samba-canção, aguardente (água + ardente), 
planalto (plano + alto).

No português, os principais processos para formar palavras são dois: DERIVAÇÃO e COMPOSIÇÃO.

Derivação


É a formação de palavras a partir da anexação de afixos (prefixos ou sufixos) ao radical da palavra primitiva.
Exemplos: inútil = prefixo in + radical útil.
O processo de derivação pode ser prefixal, sufixal, parassintético, regressivo e impróprio.

Derivação Prefixal (ou derivação por Prefixação)

Faz-se pela anexação de prefixo à palavra primitiva.
Exemplos: desfazer, refazer.

Derivação Sufixal (ou derivação por Sufixação)

Faz-se pela anexação de sufixo à palavra primitiva.
Exemplos: alegremente, carinhoso.
Os sufixos são divididos em nominais, verbais e adverbiais.
Sufixos nominais são os que derivam substantivos e adjetivos;
Sufixos verbais são os que derivam verbos;
Sufixo adverbial é o que deriva advérbio, esse existe apenas um: -m
ente

Derivação Parassintética

Faz-se pela anexação simultânea de prefixo e sufixo à palavra primitiva.
Exemplos: desalmado, entristecer.
A derivação parassintética só acontece quando os dois morfemas (prefixo e sufixo) se unem ao radical simultaneamente. Note que na palavra desalmado houve parassíntese. É fácil perceber, pois não existe a palavra desalma, da qual teria vindo desalmado, da mesma forma não existe a palavra almado, da qual também teria vindo desalmado. Portanto, ocorreu anexação de prefixo e sufixo ao mesmo tempo.
Na palavra infelizmente, a palavra existe sem o prefixo (felizmente) ou o sufixo (infeliz). Nessa palavra não ocorreu derivação parassintética e sim derivação prefixal e sufixal.


Derivação Regressiva

Faz-se pela redução da palavra primitiva.
Exemplos: trabalho (trabalhar), choro (chorar).
O processo de derivação regressiva produz os substantivos deverbais, esses são substantivos derivados a partir de verbos.


Como saber se o substantivo é derivado do verbo (derivação regressiva) ou o verbo é derivado do substantivo (derivação sufixal)?
Se o substantivo denotar objeto ou substância, o verbo é derivado. Se o substantivo denotar "a ação de", o substantivo é derivado regressivo do verbo.

âncora > ancorar; telefone > telefonar; ferro > ferrar
luta < lutar; nado < nadar; combate < combater


Derivação Imprópria

Forma-se quando uma palavra muda de classe gramatical sem que a forma da primitiva seja alterada.
Exemplos: O infeliz faltou ao serviço hoje. (adjetivo torna-se substantivo).
Não aceito um não como resposta. (advérbio torna-se substantivo, o artigo um substantiva o advérbio).
O processo mais comum é a substantivação de palavras.



Composição


O processo de composição forma palavras através da junção de duas ou mais palavras já existentes.
Exemplos: guarda-roupa, pombo-correio.

Há dois tipos de composição: aglutinação e justaposição.

Composição por Aglutinação

Ocorre quando um dos radicais, ao se unirem, sofre alterações.
Exemplos: planalto (plano + alto), embora (em + boa + hora).

Composição por Justaposição

Ocorre quando os radicais, ao se unirem, não sofrem alterações.
Exemplos: pé-de-galinha, passatempo, cachorro-quente, girassol.


Outros processos


Hibridismo

Ocorre quando os elementos que formam a palavra são de idiomas diferentes.
Exemplos: automóvel (auto= grego, móvel= latim), televisão (tele= grego, visão=latim).

Onomatopeia

Acontece nas palavras que simbolizam a reprodução de determinados sons.
Exemplos: tique-taque, zunzum.

Redução e Abreviação

A redução acontece quando uma
nova palavra é formada a partir da diminuição da palavra original que perde sílabas ou morfemas. Na abreviação, usa-se a inicial das palavras que compõem o nome.
Exemplos:

pornô (pornográfico), moto (motocicleta), pneu (pneumático) > redução
Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) > abreviação.
Observe que na abreviação, se a palavra for pronunciada como uma unidade vocabular, usa-se a primeira maiúscula e as outras minúsculas. Se for pronunciada letra por letra, todas são grafadas em maiúsculas. Assim Ibama, e não IBAMA, e IBGE, e não Ibge.


Neologismo

É a criação de novas palavras para atender às necessidades dos falantes em contextos específicos. Essa nova palavra ao ser criada segue um dos processos descritos acima, derivação ou composição.


Veja os neologismos (criados por composição - malamar; e derivação prefixal - desamar) no poema Amar, de Carlos Drummond de Andrade:







AMAR

Que pode uma criatura senão,
senão entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?

Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?
Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho,
e uma ave de rapina.
Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor à procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.
Amar a nossa falta mesma de amor,
e na secura nossa, amar a água implícita,
e o beijo tácito, e a sede infinita.
(Carlos Drummond de Andrade) 


Exercícios
Questão 1
Observe abaixo o refrão da música “Cabelo”, de Jorge Ben Jor e Arnaldo Antunes. Com base na análise deste, procure responder ao que se pede:

Cabelo, cabeleira
Cabeluda, descabela
Cabelo, cabeleira
Cabeluda, descabelada...

Disponível em: http://letras.terra.com.br/jorge-ben-jor/86143/

a) O refrão da música é formado por palavras cognatas, ou seja, palavras derivadas de um mesmo radical. Identifique o radical formador das palavras cognatas presentes no fragmento em questão.

b) Percebemos que a partir desse mesmo radical alguns elementos - prefixos e sufixos - a ele se juntaram, formando novas unidades de significação. Com base nesse pressuposto, retrate-os.
 Questão 2

Analise atentamente o poema a seguir e responda aos itens a e b:
     
                                


a – Estamos diante de um poema concreto de autoria de José Lino Grünewald. Que processo de formação de palavras foi utilizado pelo poeta?

b – Indique a classe gramatical a que pertence o radical e as demais palavras que dele se originaram.

Questão 3

O poeta  José Paulo Paes utiliza também de um recurso linguístico relacionado à estrutura das palavras. Veja:      

SEU METALÉXICO

economiopia
desenvolvimentir
utopiada
consumidoidos
patriotários
suicidadãos


José Paulo Paes 

a – O poeta, usufruindo-se de sua habilidade artística, cria neologismos a partir de palavras já existentes na língua. Analise cada verso indicando as palavras de origem e qual o possível significado da nova palavra criada..

b – Explicite seus conhecimentos relatando qual foi o processo de formação utilizado pelo poeta para criar essas palavras..